Perda auditiva súbita: porque é uma urgência médica
Muitas pessoas acordam com um ouvido 'tapado' e esperam que passe. Em alguns casos, essa espera custa a audição. Saber reconhecer o problema é o mais importante.
Imagine que acorda de manhã e o ouvido esquerdo parece cheio, como se tivesse água ou estivesse num avião a descer. Os sons desse lado chegam abafados, talvez acompanhados de um zumbido. A reacção mais comum é esperar: deve ser cera, uma constipação, vai passar. Na maioria dos casos, é isso mesmo. Mas numa parte deles trata-se de uma perda auditiva neurossensorial súbita — e aí o tempo é decisivo.
O que é a perda auditiva súbita
Os médicos definem a perda auditiva neurossensorial súbita como uma diminuição significativa da audição que se instala em menos de 72 horas, geralmente num só ouvido. Ao contrário da perda auditiva causada por cera ou por uma otite — que afecta a transmissão do som no canal ou no ouvido médio —, aqui o problema está no ouvido interno ou no nervo auditivo.
Estima-se que afecte, todos os anos, entre 5 e 27 pessoas em cada 100 mil, sendo mais frequente entre os 40 e os 60 anos. É provável que o número real seja superior, porque muitos casos ligeiros nunca chegam a ser avaliados.
Perda de audição súbita num ouvido, sem causa evidente, deve ser avaliada por um médico o mais cedo possível — idealmente no próprio dia ou nos dias seguintes.
Como se manifesta
- Sensação de ouvido tapado ou cheio, que não alivia ao engolir ou bocejar.
- Sons abafados ou distorcidos de um dos lados.
- Zumbido (acufeno) novo, muitas vezes no mesmo ouvido.
- Em alguns casos, tonturas ou desequilíbrio.
- Dificuldade súbita em ouvir ao telefone com esse ouvido.
Muitas pessoas notam o problema ao acordar. Outras dão por ele ao atender o telefone com o ouvido habitual e perceber que não ouvem bem.
As causas
Na grande maioria dos casos, não se encontra uma causa definitiva — fala-se então de perda súbita idiopática. As hipóteses mais estudadas incluem infecções virais, alterações da circulação sanguínea no ouvido interno e processos inflamatórios ou imunitários. Numa pequena percentagem há causas identificáveis, como traumatismos, determinados medicamentos ou, mais raramente, um tumor benigno do nervo auditivo. Por isso mesmo, a avaliação médica é importante não só para tratar, mas também para excluir outras causas.
Porque é que a rapidez importa
O tratamento mais utilizado são os corticosteróides, por via oral ou injectados directamente no ouvido médio, por decisão do otorrinolaringologista. As orientações clínicas internacionais indicam que o tratamento tem maior probabilidade de benefício quando é iniciado cedo, idealmente nas primeiras duas semanas e, de preferência, nos primeiros dias.
É verdade que uma parte das pessoas recupera espontaneamente, total ou parcialmente. Mas não é possível saber à partida quem vai recuperar. Esperar para ver é, por isso, uma aposta arriscada.
O que fazer se lhe acontecer
- Não espere vários dias para ver se passa.
- Contacte o SNS 24 (808 24 24 24), o seu médico de família ou dirija-se a um serviço de urgência com otorrinolaringologia.
- Não introduza objectos nem gotas no ouvido sem indicação médica.
- Se tiver também fraqueza num lado do corpo, dificuldade em falar ou desvio da boca, ligue de imediato para o 112.
Depois do episódio agudo, é recomendável fazer avaliações auditivas de seguimento para perceber como evoluiu a audição e se há necessidade de reabilitação, como um aparelho auditivo no ouvido afectado.
A mensagem essencial é simples: perder audição de repente não é normal e não deve ser desvalorizado. Em caso de dúvida, procure um profissional de saúde — quanto mais cedo, melhor.