Perda Auditiva

Perda auditiva e demência: o que a ciência já sabe

A comissão da revista The Lancet coloca a perda auditiva entre os principais factores de risco da demência que é possível alterar. Não é uma sentença: é uma oportunidade.

Durante décadas, ouvir mal foi visto como um incómodo próprio da idade — algo que obrigava a subir o volume da televisão e a pedir que repetissem, mas que não tinha grandes consequências para além disso. A investigação dos últimos quinze anos mudou essa percepção. Hoje, a perda auditiva é estudada também como uma questão de saúde do cérebro.

O dado que mais contribuiu para esta mudança veio da Lancet Commission on Dementia Prevention, um grupo internacional de especialistas que revê periodicamente a evidência sobre o que aumenta o risco de demência. Na actualização publicada em 2024, a comissão identificou 14 factores de risco modificáveis e estimou que, em conjunto, poderão estar associados a cerca de 45% dos casos. A perda auditiva não tratada surge, a par do colesterol LDL elevado na meia-idade, como um dos dois factores com maior peso individual — cerca de 7% dos casos.

Porque é que ouvir mal pode afectar o cérebro

A associação está bem documentada; os mecanismos exactos ainda estão a ser investigados. Há, no entanto, três explicações que reúnem consenso razoável entre os investigadores.

A primeira é a sobrecarga cognitiva. Quando o som chega ao cérebro de forma incompleta ou distorcida, o cérebro tem de trabalhar mais para o decifrar. Esse esforço constante pode desviar recursos de outras funções, como a memória e a atenção.

A segunda é o isolamento social. Quem ouve mal tende, muitas vezes sem dar por isso, a evitar conversas de grupo, jantares e telefonemas. Com o tempo, a vida social encolhe — e o isolamento é, ele próprio, um factor de risco reconhecido para o declínio cognitivo.

A terceira tem a ver com a estimulação. As áreas do cérebro que processam o som recebem menos informação, e estudos de imagem sugerem alterações estruturais nessas regiões em pessoas com perda auditiva prolongada.

Associação não é destino Ter perda auditiva não significa vir a ter demência. A maioria das pessoas com perda auditiva não desenvolve demência. O que os estudos mostram é um aumento do risco ao nível da população — e esse risco é, em parte, modificável.

Tratar a audição faz diferença?

Esta é a pergunta mais importante, e a resposta está a ganhar contornos. O estudo ACHIEVE, publicado na The Lancet em 2023, acompanhou durante três anos cerca de 980 adultos entre os 70 e os 84 anos com perda auditiva. Metade recebeu uma intervenção auditiva completa (avaliação, aparelhos auditivos e acompanhamento); a outra metade recebeu um programa de educação para a saúde.

No conjunto dos participantes, não houve diferença estatisticamente significativa no declínio cognitivo. Mas no subgrupo de pessoas com maior risco à partida — mais velhas e com mais factores de risco — a intervenção auditiva esteve associada a um abrandamento do declínio cognitivo de cerca de 48% ao longo dos três anos. Outros estudos observacionais de grande dimensão apontam no mesmo sentido: quem usa aparelhos auditivos tende a apresentar menor risco de demência do que quem tem perda auditiva e não os usa.

A leitura prudente destes resultados é esta: tratar a perda auditiva não é uma garantia contra a demência, mas é uma das poucas medidas ao nosso alcance com evidência crescente de benefício — e que, para além disso, melhora de forma imediata a comunicação e a qualidade de vida.

A perda auditiva é um dos factores de risco da demência que podemos efectivamente fazer alguma coisa para alterar. O primeiro passo é saber como estamos a ouvir.

O problema do tempo

Um dos obstáculos é a demora. Em média, passam vários anos entre os primeiros sinais de perda auditiva e a procura de ajuda. A perda instala-se devagar, o cérebro vai compensando, e a pessoa habitua-se a ouvir menos sem se dar conta. Quando finalmente procura avaliação, a perda costuma já estar num grau moderado.

À luz do que hoje se sabe, esse tempo perdido não é neutro. É por isso que várias entidades, incluindo a Organização Mundial da Saúde, recomendam rastreios auditivos regulares a partir dos 50 ou 60 anos, mesmo na ausência de queixas evidentes.

O que pode fazer

  • Faça uma avaliação auditiva se tem mais de 55 anos e nunca fez, ou se a última foi há mais de dois ou três anos.
  • Leve a sério os sinais subtis: dificuldade em restaurantes, pedir para repetir, cansaço depois de conversas longas.
  • Se tem indicação para aparelhos auditivos, use-os de forma consistente. Os benefícios dependem do uso diário, não de os ter na gaveta.
  • Mantenha a vida social activa. A conversa é, também, exercício para o cérebro.
  • Cuide dos restantes factores de risco: tensão arterial, diabetes, colesterol, actividade física e tabaco.

Se reconhece em si ou num familiar alguns destes sinais, uma avaliação auditiva é simples, rápida e não dolorosa. Fale com um profissional de saúde auditiva ou com o seu médico de família — é a forma mais segura de perceber em que ponto está a sua audição.

Próximo passo

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