Otosclerose: uma causa de perda auditiva com tratamento
Nem toda a perda auditiva depois dos 50 se deve à idade. A otosclerose é uma causa menos conhecida que, em muitos casos, pode ser corrigida.
Quando a audição começa a falhar depois dos 50 anos, é comum atribuir-se tudo à idade. Muitas vezes é isso mesmo: o envelhecimento natural do ouvido interno é a causa mais frequente de perda auditiva nesta fase da vida. Mas nem sempre. Há outras causas, algumas com tratamento específico, que podem passar despercebidas durante anos. A otosclerose é uma delas, e conhecê-la ajuda a perceber porque é que uma avaliação auditiva completa vale sempre a pena.
O que é a otosclerose
Para ouvirmos, o som atravessa o canal auditivo, faz vibrar o tímpano e é transmitido ao ouvido interno por três pequenos ossos do ouvido médio: o martelo, a bigorna e o estribo. O estribo é o mais pequeno osso do corpo humano e encaixa numa abertura do ouvido interno, a chamada janela oval. Para transmitir bem o som, precisa de se mover livremente.
Na otosclerose, forma-se tecido ósseo anómalo na região que rodeia o ouvido interno. Na forma mais típica, esse crescimento acontece junto à base do estribo e vai-o fixando progressivamente, como uma dobradiça que perde mobilidade. O resultado é que o som deixa de ser transmitido com a mesma eficácia: trata-se de uma perda auditiva de transmissão, ou condutiva, porque o problema está no caminho que o som percorre e não, pelo menos inicialmente, nas células do ouvido interno.
Em alguns casos, a doença atinge também o próprio ouvido interno (a cóclea). Fala-se então de otosclerose coclear, que pode acrescentar uma componente neurossensorial à perda auditiva.
Quem é afectado e como se manifesta
A otosclerose costuma começar na idade adulta jovem e evolui geralmente de forma lenta, ao longo de muitos anos. É mais frequentemente diagnosticada em mulheres e existe, em muitos casos, uma componente hereditária: não é raro haver outros familiares com o mesmo problema. Ainda assim, pode surgir em pessoas sem qualquer história familiar conhecida, e ter um familiar afectado não significa que a doença venha a aparecer.
Como a progressão é lenta, há quem chegue aos 50 ou 60 anos com uma perda auditiva que se foi instalando discretamente e que nunca foi investigada, ou que foi simplesmente atribuída à idade. Os sinais mais descritos são:
- Perda de audição gradual, muitas vezes começando por um ouvido e afectando depois os dois.
- Zumbido, que pode ser o primeiro sintoma a chamar a atenção.
- Ouvir melhor em ambientes ruidosos do que em silêncio, um fenómeno curioso descrito em algumas pessoas com perda de transmissão: num ambiente com ruído, quem fala tende a elevar a voz, o que acaba por compensar parte da perda.
- Sentir a própria voz mais alta, o que pode levar a pessoa a falar mais baixo do que o habitual.
- Tonturas ou desequilíbrio, menos frequentes, mas possíveis.
Nenhum destes sinais, por si só, permite fazer o diagnóstico. Servem sobretudo como motivo para procurar uma avaliação.
Como se faz o diagnóstico
Uma particularidade da otosclerose é que, ao exame do ouvido com otoscópio, o tímpano tem habitualmente um aspecto normal. Por isso, o diagnóstico assenta sobretudo nos exames auditivos, realizados ou pedidos pelo médico otorrinolaringologista:
- Audiograma. Compara a audição pela via aérea (o som que entra pelo canal auditivo) com a audição pela via óssea (o som transmitido directamente pelos ossos do crânio). Na perda de transmissão, a via óssea está relativamente preservada e a via aérea está pior, o que cria uma diferença característica entre as duas.
- Timpanometria e reflexos estapédicos. Avaliam o funcionamento do ouvido médio e a resposta do pequeno músculo ligado ao estribo. Na otosclerose, esses reflexos estão frequentemente alterados ou ausentes.
- Exames de imagem. Em alguns casos, o médico pode pedir uma tomografia computorizada para observar em detalhe as estruturas do ouvido.
O diagnóstico diferencial é importante, porque outras situações também causam perda de transmissão, como líquido no ouvido médio, alterações do tímpano ou lesões dos ossículos. É o conjunto da história clínica, do exame e dos testes que permite chegar a uma conclusão.
As opções de tratamento
Não existe um caminho único. A decisão depende do grau de perda auditiva, de um ou dos dois ouvidos serem afectados, do estado geral de saúde e das preferências de cada pessoa. As abordagens mais habituais são três.
Vigilância. Quando a perda é ligeira e não interfere de forma significativa no dia-a-dia, pode optar-se por acompanhar a evolução com audiogramas periódicos.
Aparelhos auditivos. Funcionam habitualmente bem nas perdas de transmissão, porque o ouvido interno continua capaz de processar o som quando este lhe chega com intensidade suficiente. São uma opção válida para quem não pode ou não quer ser operado, e também para quem prefere adiar a cirurgia.
Cirurgia. A intervenção mais comum chama-se estapedotomia (ou, numa variante, estapedectomia). O cirurgião remove parte do estribo fixo e coloca uma pequena prótese que volta a transmitir as vibrações ao ouvido interno. É uma cirurgia realizada há várias décadas e, segundo as orientações clínicas, melhora de forma significativa a audição na maioria das pessoas operadas. Habitualmente opera-se um ouvido de cada vez, começando pelo que ouve pior.
Como qualquer cirurgia, tem riscos que devem ser explicados em consulta. Entre os mais referidos estão tonturas temporárias no pós-operatório, alterações transitórias do paladar e, em situações pouco frequentes, um agravamento da audição no ouvido operado. É precisamente por este último risco que a decisão deve ser ponderada com o cirurgião, comparando benefícios e riscos para cada caso.
Quando a otosclerose atinge de forma importante o ouvido interno e a perda auditiva se torna severa, outras soluções podem ser consideradas, incluindo, em casos seleccionados, o implante coclear. Também têm sido estudados medicamentos para tentar abrandar a progressão da doença, mas a evidência disponível é limitada e o seu uso é uma decisão exclusivamente médica.
O papel da família
Como a perda se instala devagar, quem tem otosclerose nem sempre se apercebe da dimensão do problema. São muitas vezes os familiares a notar que a televisão está mais alta, que as conversas ao telefone se tornaram difíceis ou que a pessoa fala cada vez mais baixo. Comentar estas observações com tacto, sem crítica, pode ser o primeiro passo para uma consulta.
A história familiar também merece atenção. Se um dos pais ou irmãos teve otosclerose, essa informação é útil para o médico e pode justificar uma avaliação mais cedo, sobretudo se surgirem queixas de audição ou zumbido.
Se nota que ouve pior, em especial se a perda parece maior num ouvido, se tem zumbido persistente ou se há casos de otosclerose na família, fale com o seu médico de família ou com um profissional de saúde auditiva. Uma avaliação completa, com audiograma e, se necessário, consulta de otorrinolaringologia, permite perceber a causa e conhecer as opções disponíveis. Perante uma perda de audição súbita, não espere: contacte o SNS 24 (808 24 24 24) ou procure cuidados médicos com urgência.