Sinais de Alerta

Não ouvir a campainha ou o telemóvel: um sinal a valorizar

Muitas vezes, a perda auditiva não começa por um silêncio geral, mas por sons agudos que deixam de chegar. A campainha, o toque do telemóvel ou um alarme podem ser os primeiros avisos.

A cena repete-se em muitas casas. O carteiro deixa um aviso na caixa do correio porque «ninguém abriu a porta», quando alguém esteve sempre em casa. O telemóvel acumula chamadas perdidas que tocaram a poucos metros. O micro-ondas termina e ninguém dá por isso. Isoladamente, cada episódio parece uma distracção. Repetidos, podem estar a contar outra história.

Quando se pensa em perda auditiva, imagina-se muitas vezes um mundo que fica, de forma uniforme, mais baixo. Na realidade, é frequente que a audição não diminua por igual em todos os sons. Em muitos adultos, os primeiros sons a tornarem-se difíceis de ouvir são os agudos — precisamente a gama em que funcionam muitas campainhas, toques de telemóvel, apitos de electrodomésticos e alarmes.

Porque os sons agudos são, muitas vezes, os primeiros a falhar

O ouvido interno contém a cóclea, uma estrutura em forma de caracol onde milhares de células ciliadas transformam as vibrações sonoras em sinais nervosos. Cada zona da cóclea responde melhor a determinadas frequências. As células responsáveis pelos sons agudos situam-se na porção inicial da cóclea e são, de forma geral, as mais vulneráveis ao desgaste.

É por isso que a presbiacusia — a perda auditiva associada à idade — afecta tipicamente primeiro as frequências agudas, de ambos os lados e de forma gradual. A exposição prolongada ao ruído, ao longo de anos de trabalho ou lazer, tende igualmente a deixar marca nesta zona. Outros factores, como alguns medicamentos ou problemas de saúde que afectam a circulação, podem também contribuir.

Como a mudança é lenta, o cérebro vai-se adaptando e a pessoa raramente sente que «deixou de ouvir». Continua a ouvir vozes, a televisão, o trânsito. O que desaparece são sons específicos, que se tornam mais fracos ou deixam de ser notados — e a ausência de um som é algo em que quase ninguém repara.

Um problema que afecta milhõesSegundo o Relatório Mundial sobre a Audição da Organização Mundial da Saúde (2021), mais de 1,5 mil milhões de pessoas em todo o mundo vivem com algum grau de perda auditiva. A prevalência aumenta de forma marcada com a idade.

Sinais do dia-a-dia que merecem atenção

Os sinais de uma perda nos agudos costumam surgir em situações concretas e repetidas. Alguns exemplos:

  • Campainha e intercomunicador: visitas ou entregas que «tocaram e ninguém ouviu», sobretudo quando a pessoa está noutra divisão.
  • Telemóvel e telefone fixo: chamadas perdidas frequentes, ou só reparar no toque quando o aparelho está muito perto.
  • Electrodomésticos: não ouvir o apito do micro-ondas, da máquina de lavar ou do forno.
  • Sons da natureza e do ambiente: deixar de ouvir o canto dos pássaros, o tique-taque de um relógio ou o pisca do carro.
  • Vozes: maior dificuldade com vozes mais agudas, como as de crianças e de muitas mulheres, do que com vozes graves.
  • Fala pouco clara: a sensação de que os outros «falam para dentro» ou «engolem as palavras».

Este último sinal é particularmente revelador. Muitas consoantes — como o «s», o «f», o «t» ou o «ch» — têm grande parte da sua energia nas frequências agudas. As vogais, mais graves e mais fortes, continuam a ouvir-se. O resultado é uma experiência muito típica: «eu ouço, mas não percebo». A pessoa sabe que alguém está a falar, mas perde pedaços de palavras, sobretudo com ruído de fundo.

Não ouvir a campainha raramente é, por si só, motivo de preocupação. O que importa é o padrão: quando os mesmos sons falham repetidamente, vale a pena perguntar porquê.

Mais do que um incómodo: a questão da segurança

Perder uma entrega ou uma chamada é aborrecido. Mas alguns sons agudos têm uma função de protecção. Muitos detectores de fumo, alarmes e sinais sonoros de aviso usam tons agudos, precisamente por serem facilmente perceptíveis para a maioria das pessoas. Para quem tem uma perda nessa gama, podem passar despercebidos — em especial durante o sono.

Há também situações do quotidiano em que a audição contribui para a segurança sem que se pense nisso: ouvir uma bicicleta ou uma trotinete a aproximar-se, um aviso sonoro num cruzamento, alguém que chama de longe. Para pessoas que vivem sozinhas, estas questões ganham um peso ainda maior.

Por isso, quando um familiar repara que um pai, uma mãe ou um avô deixou de ouvir a campainha ou o telefone, não se trata apenas de comodidade. É uma boa ocasião para olhar para a audição com mais atenção.

O que pode fazer

O primeiro passo é distinguir o ocasional do persistente. Estar distraído, com a televisão alta ou noutra divisão explica muitos episódios. Se, pelo contrário, os mesmos sons falham repetidamente ao longo de semanas ou meses, faz sentido procurar uma avaliação.

Uma avaliação auditiva, com um audiograma, mede a audição em várias frequências — dos sons graves aos agudos — e permite perceber se existe uma perda, em que gama se situa e qual o seu grau. É um exame simples e indolor. O resultado pode tanto tranquilizar como orientar para os passos seguintes.

Enquanto isso, algumas medidas práticas podem ajudar no dia-a-dia:

  • Escolher no telemóvel um toque mais grave ou mais forte, e activar a vibração.
  • Manter o telemóvel por perto, por exemplo no bolso, em vez de o deixar noutra divisão.
  • Considerar campainhas e alarmes com sinal luminoso ou vibratório, que existem para estas situações.
  • Verificar se os detectores de fumo da casa são ouvidos a partir do quarto, com a porta fechada.

Estas soluções são úteis, mas não substituem uma avaliação. Adaptar o ambiente sem perceber a causa pode adiar durante anos um diagnóstico que tem resposta.

Há ainda uma situação diferente, que exige rapidez: se a perda de audição surgir de forma súbita, num ou nos dois ouvidos — por exemplo, ao acordar —, sobretudo se acompanhada de zumbido ou tonturas, deve procurar avaliação médica com urgência. Nestes casos, pode contactar o SNS 24 (808 24 24 24) ou, em situação grave, ligar 112.

Ouvir o que o silêncio diz

A perda auditiva gradual é, muitas vezes, invisível para quem a tem. Não dói, não aparece de um dia para o outro e o cérebro compensa durante muito tempo. Os sons que deixam de ser ouvidos — a campainha, o telefone, os pássaros — são frequentemente os primeiros indícios, e a família está muitas vezes em melhor posição para os notar do que a própria pessoa.

Se se reconhece nestas situações, ou se as observa num familiar, o passo mais útil é falar com um profissional de saúde auditiva ou com o médico de família. Uma avaliação permite perceber o que se passa e, se for caso disso, encontrar as soluções mais adequadas para continuar a ouvir os sons que importam.

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