Prevenção

Medicamentos ototóxicos: quando um remédio afecta a audição

A maioria dos medicamentos não tem qualquer efeito sobre a audição. Mas alguns têm, e conhecê-los ajuda a reconhecer sinais cedo e a fazer as perguntas certas ao médico.

Quando se fala em proteger a audição, pensa-se quase sempre no ruído: máquinas, concertos, auscultadores. Há, no entanto, outra causa de lesão do ouvido que é menos conhecida e que costuma surgir num contexto muito diferente — o tratamento de uma doença. Chama-se ototoxicidade e designa a capacidade de certas substâncias, incluindo alguns medicamentos, de danificar o ouvido interno.

A Organização Mundial da Saúde, no seu Relatório Mundial sobre a Audição (2021), inclui os medicamentos ototóxicos entre as causas de perda auditiva que podem, em parte, ser prevenidas ou detectadas a tempo. Este artigo explica o que está em causa, sem alarmismo: para a grande maioria das pessoas, os medicamentos que tomam não representam qualquer risco para os ouvidos.

O que acontece no ouvido

O ouvido interno tem duas partes com funções distintas. A cóclea transforma as vibrações sonoras em sinais nervosos, graças a milhares de células ciliadas muito sensíveis. O sistema vestibular ajuda a manter o equilíbrio e a estabilizar a visão quando a cabeça se move.

Os medicamentos ototóxicos podem afectar uma destas partes, ou ambas. Quando atingem a cóclea, o efeito mais comum é uma perda auditiva que começa nos sons agudos e um zumbido nos ouvidos. Quando atingem o sistema vestibular, surgem desequilíbrio, instabilidade ao andar ou a sensação de que a imagem «salta» quando se caminha.

Em alguns casos o efeito é temporário e desaparece quando o medicamento é suspenso. Noutros, as células lesadas não se regeneram e a perda torna-se permanente. Tudo depende do medicamento, da dose, da duração do tratamento, do funcionamento dos rins e da sensibilidade individual — há pessoas com uma predisposição genética que as torna mais vulneráveis a certos antibióticos.

Os grupos mais conhecidos

A lista de substâncias com potencial ototóxico é longa, mas a maior parte do risco concentra-se em alguns grupos bem estudados:

  • Antibióticos aminoglicosídeos, como a gentamicina ou a amicacina. São usados sobretudo em meio hospitalar, por via injectável, em infecções graves. Podem afectar a audição, o equilíbrio ou ambos, e a lesão é frequentemente permanente.
  • Alguns medicamentos de quimioterapia, em particular os derivados da platina, como a cisplatina. A perda auditiva que provocam é geralmente nos sons agudos e tende a ser irreversível.
  • Diuréticos de ansa, como a furosemida, sobretudo em doses elevadas administradas por via intravenosa. O efeito costuma ser transitório, mas o risco aumenta quando são combinados com outros medicamentos ototóxicos.
  • Ácido acetilsalicílico em doses elevadas. Pode causar zumbido e uma ligeira perda auditiva, que habitualmente desaparecem quando a dose é reduzida ou o medicamento suspenso.
  • Quinino e alguns antimaláricos, que podem provocar zumbido e alterações da audição, geralmente reversíveis.

Em relação aos analgésicos e anti-inflamatórios de uso comum, alguns estudos observacionais associaram o uso regular e prolongado a um risco ligeiramente maior de perda auditiva. Estes estudos mostram uma associação, não uma relação de causa e efeito, e não justificam deixar de tomar um medicamento receitado. São, isso sim, mais um motivo para não fazer automedicação prolongada sem orientação.

Não suspenda por conta própriaMuitos destes medicamentos tratam doenças graves, e interromper um tratamento pode ter consequências muito mais sérias do que o risco para a audição. Se tem dúvidas, fale com o médico que o receitou ou com o seu farmacêutico.

Sinais a que deve estar atento

Os efeitos ototóxicos podem aparecer durante o tratamento ou algum tempo depois. Como a perda começa muitas vezes nos sons agudos, as primeiras alterações podem passar despercebidas na conversa do dia-a-dia. Vale a pena reparar em:

  • Um zumbido novo, ou um zumbido que já existia e se tornou mais intenso.
  • Sensação de ouvido cheio ou tapado.
  • Dificuldade em perceber a fala, sobretudo em ambientes com ruído.
  • Desequilíbrio, tonturas ou instabilidade ao andar, especialmente no escuro.
  • Sensação de que a visão oscila quando se caminha ou se roda a cabeça.

Se algum destes sinais surgir durante um tratamento, informe o médico o mais cedo possível. Nalguns casos é possível ajustar a dose ou trocar de medicamento. Uma perda de audição súbita, sobretudo num só ouvido, deve ser avaliada com urgência: contacte o SNS 24 (808 24 24 24) ou, em caso de emergência, o 112.

O objectivo não é ter medo dos medicamentos. É saber que a audição também pode ser afectada e dizê-lo a tempo.

Como se faz a prevenção

Quando um tratamento com risco conhecido é necessário, a prevenção passa sobretudo pela vigilância. Orientações de sociedades científicas de audiologia, como a American Speech-Language-Hearing Association, recomendam que as pessoas que vão fazer tratamentos com elevado potencial ototóxico tenham uma avaliação auditiva antes de começar, controlos durante o tratamento e uma reavaliação depois. Este acompanhamento permite detectar alterações numa fase em que ainda é possível agir.

Há também medidas ao alcance de cada pessoa:

  • Mantenha uma lista actualizada de todos os medicamentos que toma, incluindo os de venda livre e os suplementos, e mostre-a sempre que for a uma consulta.
  • Informe o médico se já tem perda auditiva, zumbido ou problemas de equilíbrio, ou se já teve reacções deste tipo a algum medicamento.
  • Refira antecedentes familiares de surdez associada a antibióticos, se os conhecer.
  • Leia o folheto informativo e pergunte ao farmacêutico se tiver dúvidas sobre efeitos na audição.
  • Proteja os ouvidos do ruído durante e após tratamentos de risco, já que a combinação dos dois factores pode somar danos.
  • Evite a automedicação prolongada com analgésicos e anti-inflamatórios sem indicação médica.

Para as famílias e cuidadores

Depois dos 50 anos é comum tomar vários medicamentos em simultâneo, e nem sempre a pessoa se lembra de todos quando está numa consulta. Um familiar atento pode ajudar a manter a lista de medicação em dia, acompanhar a pessoa às consultas e reparar em mudanças que ela própria não valoriza — como pedir para repetir mais vezes, aumentar o volume da televisão ou parecer menos segura a andar.

Se teve um tratamento com medicamentos ototóxicos, ou se nota alterações na audição ou no equilíbrio desde que começou uma nova medicação, não espere que passe. Fale com o seu médico de família ou com um profissional de saúde auditiva: uma avaliação simples permite perceber o que mudou e qual o melhor caminho a seguir.

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