Dois aparelhos ou um? Porque ouvir com os dois ouvidos importa
O cérebro foi feito para ouvir com dois ouvidos. Perceber o que se ganha com a audição binaural ajuda a tomar uma decisão mais informada.
Quando se descobre uma perda auditiva nos dois ouvidos, uma das primeiras dúvidas costuma ser esta: é mesmo preciso usar dois aparelhos, ou um chega? A pergunta é compreensível. Um só aparelho parece mais simples, mais discreto e menos dispendioso, e há quem pense que basta "tratar o ouvido pior". No entanto, a forma como o cérebro processa o som explica porque é que, na maioria das perdas bilaterais, os profissionais recomendam dois aparelhos.
O cérebro ouve com os dois ouvidos
Ouvir não é apenas captar som. É o cérebro que interpreta a informação que chega de cada ouvido e a combina numa única percepção. Chama-se a isto audição binaural — literalmente, ouvir com os dois ouvidos — e é graças a ela que conseguimos fazer coisas que raramente notamos no dia-a-dia.
Um som que vem da direita chega ao ouvido direito uma fracção de segundo antes do esquerdo, e com um pouco mais de intensidade, porque a cabeça faz "sombra" ao ouvido do lado oposto. Estas diferenças são mínimas, mas o cérebro usa-as constantemente para saber de onde vem o som, separar vozes e ignorar parte do ruído de fundo.
Quando um dos ouvidos ouve pior, essa comparação fica desequilibrada. E se a perda existe nos dois lados mas só um é ajudado, o cérebro continua a receber informação incompleta e desigual.
O que se ganha com dois aparelhos
Nas perdas auditivas que afectam ambos os ouvidos, o uso de dois aparelhos procura devolver ao cérebro informação mais equilibrada. Os benefícios mais descritos na literatura clínica são:
- Localizar sons. Perceber de onde vem uma voz, uma campainha ou um carro que se aproxima. Além de facilitar a conversa, é uma questão de segurança, por exemplo ao atravessar a rua.
- Compreender melhor a fala em ambientes ruidosos. Num restaurante, num almoço de família ou numa reunião, os dois ouvidos ajudam o cérebro a concentrar-se em quem fala e a pôr o ruído em segundo plano. É precisamente nestas situações que muitas pessoas com perda auditiva sentem mais dificuldade.
- Ouvir de ambos os lados. Com um só aparelho, quem fala do lado não ajudado pode ser mal percebido, o que obriga a virar a cabeça ou a escolher sempre o mesmo lugar à mesa.
- Som mais natural e equilibrado. Muitos utilizadores descrevem a sensação de o som estar "centrado", em vez de vir apenas de um lado.
- Menos esforço. Quando a informação chega de forma mais completa, o cérebro tem menos trabalho a preencher falhas, o que pode tornar as conversas longas menos cansativas.
E o ouvido que fica sem aparelho?
Há outro argumento, menos conhecido, a favor de tratar os dois ouvidos quando ambos têm perda. O sistema auditivo precisa de ser estimulado. Estudos indicam que, em algumas pessoas com perda bilateral que usam apenas um aparelho durante muito tempo, a capacidade de compreender a fala pelo ouvido não ajudado pode diminuir ao longo dos anos. Este fenómeno é descrito como privação auditiva.
Nem todas as pessoas são afectadas da mesma forma, e há estudos que sugerem que parte desta perda de desempenho pode recuperar quando o ouvido volta a ser estimulado. Ainda assim, é uma razão adicional para não adiar a decisão e para discutir o tema com o profissional que acompanha a avaliação.
Quando um só aparelho pode fazer sentido
Dois aparelhos não são uma regra absoluta. A recomendação depende sempre dos resultados da avaliação auditiva e das necessidades de cada pessoa. Há situações em que a solução pode ser diferente:
- Perda auditiva num só ouvido, com o outro a ouvir normalmente. Nesse caso, pode bastar um aparelho no lado afectado — ou, quando esse ouvido já não beneficia de amplificação, podem ser consideradas soluções específicas, a discutir com o médico otorrinolaringologista.
- Diferenças muito grandes entre os dois ouvidos, em que um deles tem pouca capacidade de compreender a fala mesmo com amplificação.
- Casos pouco frequentes em que a pessoa sente que o segundo aparelho prejudica, em vez de ajudar, a compreensão. Estudos indicam que isto pode acontecer em algumas pessoas mais velhas, e é algo que se avalia caso a caso.
- Dificuldades práticas, como problemas de destreza manual ou de visão que tornem difícil manusear dois aparelhos. Aqui, o apoio da família e a escolha de modelos mais fáceis de usar podem fazer a diferença.
Também o custo pesa, naturalmente, na decisão de muitas famílias. É uma preocupação legítima, que deve ser falada abertamente com o profissional, para perceber as opções disponíveis sem abdicar de uma avaliação rigorosa do que cada ouvido precisa.
Como tomar a decisão
A escolha entre um ou dois aparelhos não deve basear-se apenas na impressão de que "um ouvido ainda está bem". Muitas vezes, a pessoa compara-se com o ouvido pior e não se apercebe de que o melhor também já perdeu capacidade. Um audiograma e testes de compreensão da fala, de preferência também em ruído, dão uma imagem mais objectiva.
Algumas perguntas úteis para levar à consulta:
- A minha perda auditiva afecta os dois ouvidos? Em que grau cada um?
- Que diferença devo esperar com um aparelho e com dois, nas situações que mais me custam?
- É possível experimentar as duas opções durante o período de adaptação?
- Se optar por um só aparelho, que acompanhamento devo fazer ao outro ouvido?
Ir à consulta acompanhado por um familiar pode ajudar. Quem convive diariamente com a pessoa nota muitas vezes as situações em que a comunicação falha — a mesa de jantar, o telefone, a televisão — e pode contribuir para uma decisão mais realista.
Ouvir bem não é só ouvir mais alto. É perceber de onde vem o som, acompanhar uma conversa no meio do ruído e participar sem esforço excessivo — e para isso o cérebro conta com os dois ouvidos.
Se tem dificuldades de audição, ou se já usa um aparelho e se pergunta se beneficiaria de um segundo, fale com um profissional de saúde auditiva ou com o seu médico de família. Uma avaliação completa permite perceber o que cada ouvido precisa e escolher a solução mais adequada ao seu dia-a-dia.