Perda Auditiva

Doença de Ménière: vertigens, zumbido e audição que oscila

Uma perturbação do ouvido interno que afecta ao mesmo tempo a audição e o equilíbrio. Conhecer os seus sinais ajuda a procurar avaliação mais cedo.

Imagine-se uma manhã normal que, sem aviso, se transforma: o quarto parece girar, o equilíbrio desaparece, surgem náuseas e um ouvido fica abafado, com um zumbido forte. Passadas algumas horas, a crise acalma e a audição melhora. Dias ou semanas depois, tudo se repete. Para muitas pessoas, esta é a forma como se apresenta a doença de Ménière, uma perturbação do ouvido interno descrita pela primeira vez pelo médico francês Prosper Ménière, no século XIX.

Não é uma doença frequente, mas tem um impacto considerável na qualidade de vida, sobretudo pela imprevisibilidade das crises. Segundo o NIDCD, o instituto norte-americano dedicado às perturbações da audição e da comunicação, surge na maioria dos casos entre os 40 e os 60 anos. Conhecer os seus sinais ajuda a procurar ajuda mais cedo e a distinguir esta situação de outras causas de tonturas, comuns depois dos 50.

O que se passa no ouvido interno

O ouvido interno tem duas funções: a audição, a cargo da cóclea, e o equilíbrio, a cargo do sistema vestibular. Ambos estão cheios de líquidos que, ao moverem-se, informam o cérebro sobre os sons que nos chegam e sobre a posição e os movimentos da cabeça.

Na doença de Ménière observa-se, com frequência, uma acumulação anómala de um desses líquidos, a endolinfa, a que se chama hidrópsia endolinfática. Esse excesso de líquido perturba o funcionamento normal das estruturas sensoriais, o que explica por que razão a audição e o equilíbrio são afectados em simultâneo.

A causa exacta, contudo, continua por esclarecer. Estudos indicam que podem estar envolvidos vários factores, como alterações na drenagem dos líquidos, predisposição genética, reacções imunitárias ou associação com a enxaqueca. Na maioria das pessoas, nenhum destes factores é identificado com certeza, e o diagnóstico assenta sobretudo nos sintomas e nos exames auditivos.

Os sintomas típicos

A doença afecta habitualmente um só ouvido, embora em algumas pessoas possa vir a atingir os dois ao longo dos anos. Os sintomas aparecem em crises e combinam, de forma característica, quatro elementos:

  • Vertigem. Não é apenas uma sensação vaga de tontura, mas a impressão de que o ambiente gira ou de que o próprio corpo roda. Nas crises típicas, dura de 20 minutos a algumas horas e acompanha-se muitas vezes de náuseas e vómitos.
  • Perda auditiva flutuante. A audição do ouvido afectado piora durante as crises e pode recuperar, total ou parcialmente, entre elas. No início, afecta sobretudo os sons graves.
  • Zumbido. Um som que só a pessoa ouve, muitas vezes descrito como um ruído grave ou um rugido, que tende a intensificar-se antes ou durante a crise.
  • Sensação de ouvido cheio. Uma pressão ou plenitude no ouvido, semelhante à que se sente numa descida de avião.

Entre as crises, muitas pessoas sentem-se bem. Com o passar dos anos, porém, as crises de vertigem tendem a tornar-se menos frequentes em muitos casos, enquanto a perda auditiva pode deixar de oscilar e tornar-se permanente. Algumas pessoas ficam também com uma instabilidade ligeira e persistente. Num pequeno número de casos podem ocorrer quedas súbitas, sem perda de consciência, que exigem cuidados redobrados.

Nem toda a tontura é MénièreA maioria das vertigens tem outras causas, muitas delas benignas. Mas uma vertigem súbita acompanhada de dificuldade em falar, fraqueza de um lado do corpo, visão dupla ou dor de cabeça intensa pode ser sinal de um acidente vascular cerebral: nesse caso, ligue de imediato para o 112.

Como se chega ao diagnóstico

Não existe um exame único que confirme a doença de Ménière. O diagnóstico é feito pelo médico, habitualmente um otorrinolaringologista, com base num conjunto de elementos. Os critérios clínicos internacionalmente usados exigem, para um diagnóstico definitivo, pelo menos dois episódios de vertigem espontânea com a duração característica e uma perda auditiva neurossensorial documentada num audiograma, no ouvido afectado.

Por isso, a descrição pormenorizada das crises é muito valiosa. Vale a pena registar:

  • quando começaram as crises e com que frequência surgem;
  • quanto tempo dura cada episódio;
  • que ouvido parece afectado e se a audição muda antes, durante ou depois;
  • se há outros sintomas, como dores de cabeça ou sensibilidade à luz.

Além do audiograma, que pode ser repetido para documentar a flutuação da audição, o médico pode pedir provas do equilíbrio e, em alguns casos, uma ressonância magnética. Este último exame é sobretudo útil para excluir outras situações com sintomas semelhantes, como o neurinoma do acústico, um tumor benigno do nervo da audição. A enxaqueca vestibular é outra causa frequente de crises de vertigem que é preciso considerar.

O que se pode fazer

A doença de Ménière não tem cura, mas há várias formas de reduzir a frequência e a intensidade das crises e de conviver melhor com elas. A escolha depende de cada pessoa e deve ser feita com o médico, de forma gradual, começando pelas abordagens menos invasivas.

Hábitos de vida. É frequente o médico aconselhar a redução do sal na alimentação e a moderação do consumo de cafeína e de álcool. A evidência científica sobre estas medidas é limitada, mas são simples e fazem parte das recomendações habituais. Dormir o suficiente e gerir o stress são também referidos por muitos doentes como úteis.

Medicação. Durante as crises, podem ser receitados medicamentos para aliviar a vertigem e as náuseas. Para a prevenção, existem outras opções, cuja indicação cabe exclusivamente ao médico.

Tratamentos no ouvido. Quando as crises persistem apesar das medidas anteriores, o otorrinolaringologista pode propor injecções de medicamentos através do tímpano. Em situações mais resistentes, e já mais raramente, pode ser discutida uma cirurgia.

Reabilitação vestibular. Trata-se de um programa de exercícios, orientado por profissionais com formação específica, que ajuda o cérebro a compensar a instabilidade entre as crises.

Apoio à audição. Quando a perda auditiva se torna permanente, os aparelhos auditivos podem ajudar a manter a comunicação e a participação na vida social, e devem ser avaliados por um profissional de saúde auditiva, tendo em conta as particularidades desta doença.

Viver com crises imprevisíveis

Um dos aspectos mais difíceis da doença de Ménière é não saber quando virá a próxima crise. Isso leva algumas pessoas a evitar conduzir, viajar ou sair sozinhas, o que pode conduzir ao isolamento. Algumas precauções práticas ajudam: sentar-se ou deitar-se logo que a vertigem começa, manter a cabeça imóvel e os olhos fixos num ponto, e ter por perto um local seguro onde descansar.

Para a família, compreender que a crise é real e incapacitante, ainda que passe ao fim de algumas horas, faz toda a diferença. A presença calma de alguém, a ajuda a evitar quedas e a paciência nos dias em que a audição está pior são formas concretas de apoio. Em caso de dúvida sobre sintomas novos ou mais intensos, o SNS 24 (808 24 24 24) pode orientar sobre o melhor passo a dar.

Se reconhece estes sintomas em si ou num familiar, sobretudo a combinação de vertigens, zumbido e audição que oscila num dos ouvidos, fale com o seu médico de família ou com um profissional de saúde auditiva. Uma avaliação atempada permite confirmar o diagnóstico, excluir outras causas e encontrar a forma mais adequada de controlar a doença.

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