Dificuldade ao telefone: um sinal precoce de perda auditiva
Pedir para repetir, culpar a rede, evitar atender. A dificuldade em perceber chamadas é muitas vezes o primeiro sítio onde a perda auditiva se revela.
O telefone toca, é um filho ou uma amiga, e a conversa começa bem. Mas, ao fim de alguns minutos, surgem as frases do costume: «Desculpe, pode repetir?», «A ligação está má», «Fala mais alto, que não te estou a perceber». Muitas vezes a culpa é atribuída à rede, ao telemóvel ou à forma de falar de quem está do outro lado. Por vezes é mesmo isso. Mas quando a dificuldade se torna habitual, pode ser um dos primeiros sinais de que a audição está a mudar.
A conversa telefónica é, de certo modo, um teste exigente para os ouvidos. E é frequente que os problemas apareçam primeiro aí, muito antes de se notarem numa conversa à mesa ou na sala.
Porque é que o telefone revela o que a conversa cara a cara esconde
Numa conversa presencial, o cérebro não depende apenas do som. Recorre, muitas vezes sem darmos por isso, a pistas visuais: o movimento dos lábios, a expressão do rosto, os gestos, o contexto do que está a acontecer à nossa volta. Estas pistas ajudam a preencher as lacunas quando uma palavra chega incompleta. Ao telefone, tudo isso desaparece. Fica apenas a voz.
Além disso, o som telefónico é mais pobre do que a voz ao vivo. As chamadas transmitem apenas uma parte das frequências da fala, e a qualidade varia com a rede, o aparelho e o ambiente de quem fala. Quando a audição está intacta, o cérebro compensa estas limitações com facilidade. Quando já existe alguma perda, essa margem de compensação diminui.
Há ainda um pormenor importante: a maioria das pessoas atende sempre com o mesmo ouvido. Por isso, uma diferença de audição entre os dois lados pode passar despercebida no dia-a-dia e tornar-se evidente apenas quando se segura o telefone.
A relação com a perda auditiva associada à idade
A forma mais comum de perda auditiva nos adultos mais velhos é a presbiacusia, ligada ao envelhecimento do ouvido interno. Instala-se de forma gradual, ao longo de anos, e costuma afectar primeiro os sons agudos. São precisamente esses sons que transportam muitas das consoantes — como o «s», o «f», o «t» ou o «ch» — que distinguem palavras parecidas entre si.
O resultado é uma queixa muito característica: a pessoa ouve que alguém está a falar, mas não percebe bem o que é dito. As vogais, mais graves e mais fortes, continuam a chegar; as consoantes perdem-se. Daí a sensação de que os outros «falam para dentro» ou «engolem as palavras». Ao telefone, sem a ajuda da leitura labial, este efeito torna-se ainda mais notório.
Segundo a Organização Mundial da Saúde, a perda auditiva é uma das condições crónicas mais frequentes e aumenta de forma acentuada com a idade. Como avança devagar, muitas pessoas adaptam-se sem se aperceberem — e é muitas vezes num contexto exigente, como uma chamada, que a mudança se revela.
Ouvir a voz mas não perceber as palavras é uma das queixas mais típicas da perda auditiva gradual. O telefone apenas a torna mais visível.
Sinais a que vale a pena estar atento
Ter uma chamada difícil de vez em quando é normal. O que merece atenção é o padrão. Alguns sinais frequentes:
- Pedir com frequência para repetir, sobretudo nomes, números ou moradas.
- Subir sempre o volume do telemóvel até ao máximo e, mesmo assim, ter dificuldade.
- Perceber melhor quando muda o telefone para o outro ouvido — ou pior.
- Evitar atender chamadas, deixar que seja outra pessoa a falar, ou preferir mensagens escritas.
- Sentir-se cansado ou irritado depois de uma conversa telefónica mais longa.
- Ter mais dificuldade com vozes de crianças ou com vozes femininas, que tendem a ser mais agudas.
- Familiares comentarem que responde a coisas diferentes daquilo que foi perguntado.
Nenhum destes sinais, isoladamente, permite tirar conclusões. Mas se vários se repetem há meses, justificam uma avaliação. Do mesmo modo, se a dificuldade surgir de repente num só ouvido, de um dia para o outro, não deve esperar: trata-se de uma situação que deve ser avaliada por um médico com urgência. Pode contactar o SNS 24 (808 24 24 24) para orientação.
O que pode ajudar no dia-a-dia
Enquanto aguarda uma avaliação, ou mesmo depois dela, há medidas simples que tornam as chamadas mais fáceis:
- Escolher um local calmo: afastar-se da televisão, da rua ou da cozinha faz uma diferença considerável.
- Encostar bem o telefone ao ouvido: a posição do altifalante influencia bastante o que se ouve.
- Experimentar o altifalante ou auscultadores, que permitem ouvir com os dois ouvidos ao mesmo tempo.
- Preferir videochamadas quando possível, para voltar a ter a ajuda do rosto e dos lábios de quem fala.
- Explorar as opções de acessibilidade do telemóvel, como o ajuste do som ou a legendagem automática de chamadas, quando disponíveis.
- Pedir a quem liga que fale um pouco mais devagar e de forma clara — falar mais alto nem sempre ajuda e pode distorcer a voz.
- Confirmar a informação importante repetindo-a ou pedindo que seja enviada por mensagem: horas de consultas, moradas, números.
Estas estratégias são úteis, mas não resolvem a causa. Quando a dificuldade resulta de uma perda auditiva, adaptar o comportamento pode adiar o diagnóstico durante anos. E a investigação tem mostrado que a perda auditiva não tratada está associada a maior isolamento social e a outras consequências para a qualidade de vida.
O papel da família
Muitas vezes são os filhos ou os netos os primeiros a reparar. Notam que as chamadas se tornaram mais curtas, que os pais deixaram de atender ou que as conversas são cheias de mal-entendidos. Vale a pena falar do assunto com calma e sem tom de crítica, partindo de situações concretas: «Tenho reparado que ao telefone custa-lhe perceber-me. Já pensou em fazer um exame aos ouvidos?»
Para quem liga, também há gestos que ajudam: telefonar de um local silencioso, falar de frente para o microfone, não comer nem mastigar durante a chamada e reformular uma frase em vez de a repetir exactamente da mesma forma.
A dificuldade em ouvir ao telefone não é inevitável nem algo que se tenha simplesmente de aceitar com a idade. É, muitas vezes, um primeiro aviso — e um bom pretexto para cuidar da audição a tempo. Se se reconhece nestas situações, ou reconhece um familiar, fale com um profissional de saúde auditiva ou com o seu médico de família. Uma avaliação auditiva é simples, indolor e permite perceber o que está a acontecer e quais as opções disponíveis.