Diabetes e audição: a ligação que pouca gente conhece
Quem tem diabetes conhece bem os exames aos olhos, aos rins e aos pés. A audição raramente entra na lista — mas a evidência sugere que devia.
A diabetes é uma das doenças crónicas mais comuns em Portugal, e quem vive com ela habitua-se a uma rotina de vigilância: análises regulares, observação dos olhos, avaliação dos rins, cuidados com os pés. Há, no entanto, um órgão que quase nunca é mencionado nesta lista e que também pode ser afectado: o ouvido.
O que dizem os estudos
A relação entre diabetes e perda auditiva tem sido estudada há várias décadas. Uma análise de dados de saúde da população norte-americana, publicada em 2008 nos Annals of Internal Medicine, concluiu que a perda auditiva era cerca de duas vezes mais frequente em adultos com diabetes do que em adultos sem a doença. O mesmo trabalho observou que, mesmo em pessoas com valores de açúcar no sangue acima do normal mas ainda sem diagnóstico de diabetes (a chamada pré-diabetes), a taxa de perda auditiva era superior à da população com valores normais.
Revisões posteriores, que reuniram dezenas de estudos de diferentes países, confirmaram a associação. O tipo de perda mais encontrado é neurossensorial, ou seja, com origem no ouvido interno ou no nervo auditivo, e afecta tipicamente os dois ouvidos de forma gradual.
Porque é que a diabetes pode afectar a audição
O ouvido interno é uma estrutura delicada, que depende de vasos sanguíneos muito pequenos e de células nervosas altamente especializadas. A hipótese mais aceite é que os níveis elevados de glicose no sangue, ao longo dos anos, danificam esses pequenos vasos e nervos — de forma semelhante ao que acontece nos olhos (retinopatia), nos rins (nefropatia) e nos nervos periféricos (neuropatia).
Há também factores que costumam acompanhar a diabetes e que são, por si só, prejudiciais para a audição, como a hipertensão arterial e as alterações do colesterol.
Um problema que passa despercebido
Como a perda auditiva associada à diabetes se instala devagar, muitas pessoas não se apercebem dela durante anos. Atribuem a dificuldade em perceber conversas ao barulho do ambiente ou ao facto de os outros falarem baixo. Os sinais mais comuns são:
- Dificuldade em acompanhar conversas em locais com ruído.
- Necessidade de aumentar o volume da televisão ou do telefone.
- Ouvir, mas não perceber claramente as palavras.
- Zumbidos nos ouvidos.
A audição pode ser uma das complicações mais silenciosas da diabetes — precisamente porque ninguém a procura.
O que pode fazer
Se tem diabetes, há medidas simples que fazem sentido:
- Inclua a audição no seu acompanhamento. Fale com o seu médico de família sobre fazer uma avaliação auditiva, sobretudo se tem mais de 50 anos ou se a diabetes foi diagnosticada há vários anos.
- Faça uma avaliação de referência, mesmo sem queixas. Ter um primeiro exame permite comparar a evolução nos anos seguintes.
- Mantenha o controlo da glicemia, da tensão arterial e do colesterol, conforme orientação médica. O que protege os olhos e os rins tende também a proteger os ouvidos.
- Proteja os ouvidos do ruído intenso, que soma risco ao já existente.
- Mantenha-se activo. O exercício físico regular melhora a circulação e o controlo metabólico.
E se já houver perda auditiva?
A perda auditiva neurossensorial geralmente não é reversível, mas pode ser reabilitada. Os aparelhos auditivos actuais permitem recuperar grande parte da capacidade de comunicação e reduzir o esforço do dia-a-dia. Quanto mais cedo a perda for identificada, mais fácil tende a ser a adaptação.
A diabetes exige vigilância em várias frentes. Acrescentar a audição a essa lista é um gesto simples, que pode evitar anos de dificuldades desnecessárias. Em caso de dúvida, procure o seu médico ou um profissional de saúde auditiva.