Porque ignoramos a perda auditiva durante anos — e o que isso nos custa
Os especialistas chamam-lhe "a epidemia silenciosa". A perda auditiva afecta mais portugueses do que a diabetes — e ainda assim continuamos a tratar o assunto como um tabu.
Imaginem que começam a precisar de óculos mas, durante sete anos, ignoram o facto de que estão a ver cada vez menos. Parece absurdo. E no entanto, é exactamente isso que a maioria das pessoas faz com a audição.
Segundo dados internacionais citados pela Organização Mundial de Saúde, a média de tempo entre os primeiros sinais de perda auditiva e a procura de tratamento é de sete anos. Em Portugal, estima-se que apenas uma em cada cinco pessoas com dificuldades auditivas use algum tipo de compensação.
As razões são várias: negação, estigma social e falta de informação. E uma característica insidiosa desta condição — instala-se tão gradualmente que o próprio raramente nota a diferença. O cérebro vai-se habituando a ouvir cada vez menos, compensando com esforço cognitivo crescente, até que uma conversa num restaurante se torna exaustiva.
O que os estudos mostram é que adiar o diagnóstico tem custos reais: maior risco de isolamento social, deterioração cognitiva mais acelerada — uma revisão publicada no Lancet em 2020 identificou a perda auditiva não tratada como o maior factor de risco modificável para demência — e, ao nível prático, piores resultados de reabilitação auditiva quando se decide finalmente agir.
A boa notícia é que este é, simultaneamente, um dos problemas de saúde pública mais fáceis de rastrear: uma consulta de avaliação demora cerca de trinta minutos, é indolor, e permite distinguir claramente quem tem perda auditiva de quem apenas se queixa ocasionalmente.